“Some guys have all the luck
Some guys have all the pain
Some guys get all the breaks
Some guys do nothing but complain”
Há qualquer coisa de profundamente humano nestes versos, imortalizados por Rod Stewart.
Em poucas palavras, conseguem retratar uma parte significativa daquilo que somos e, sobretudo, da forma como tantas vezes olhamos para a nossa própria vida.
Há dias em que parece que temos toda a sorte do mundo. As coisas acontecem no momento certo, as pessoas certas cruzam o nosso caminho, os planos concretizam-se e sentimos que, de alguma forma, a vida decidiu sorrir-nos.
Depois há os outros dias.
Aqueles em que nada parece encaixar. Em que uma coisa corre mal atrás da outra e começamos a questionar se haverá alguém, algures, responsável por garantir que tudo nos acontece precisamente ao contrário daquilo que desejávamos.
E há ainda aqueles dias, talvez os mais curiosos, em que não conseguimos sequer explicar porquê, mas tudo nos incomoda. O mundo parece injusto, os outros parecem ter mais sorte, mais dinheiro, mais oportunidades, mais amor, mais sucesso… enfim, parece que toda a gente recebeu um pedaço maior do bolo que nós.
É a vida.
E talvez uma das maiores dificuldades de viver seja precisamente aceitar que ela é feita de tudo isto.
De dias luminosos e dias cinzentos. De encontros e despedidas. De conquistas e fracassos. De momentos em que nos sentimos invencíveis e de outros em que duvidamos de nós próprios.
Passamos demasiado tempo a tentar encontrar uma lógica em tudo o que nos acontece. Procuramos explicações para aquilo que corre mal e, quando corre bem, quase nunca nos perguntamos porquê. Como se a felicidade fosse um direito adquirido e a adversidade uma espécie de erro que alguém se esqueceu de corrigir.
Mas talvez não exista uma explicação para tudo.
Talvez a vida seja simplesmente isto: uma sucessão de momentos que chegam, permanecem durante algum tempo e, inevitavelmente, partem.
Há algum tempo, ouvi Tom Hanks, numa conversa com outros atores, dizer algo que ficou comigo. Falava daquele que era, segundo ele, um dos seus grandes mantras:
“Isto vai passar.”
Quatro palavras aparentemente banais, mas que encerram uma enorme sabedoria.
Porque vai mesmo passar.
Quando estamos no topo, vai passar.
Quando estamos no fundo, também.
A felicidade passa. A tristeza passa. O sucesso passa. O fracasso passa. A ansiedade passa. A dor passa. Até aqueles momentos que julgamos eternos, sejam eles os melhores ou os piores da nossa vida, acabam por se transformar em memória.
Talvez seja precisamente essa consciência da impermanência que nos possa ensinar a viver melhor.
A aproveitar mais os dias bons, porque sabemos que não durarão para sempre.
A relativizar os dias maus, porque sabemos que também eles terão um fim.
A abraçar quem amamos com um pouco mais de força, a rir quando temos vontade de rir, a dizer aquilo que tantas vezes adiamos e a não deixar para amanhã aquilo que hoje ainda podemos viver.
Podemos passar uma vida inteira a tentar descobrir o sentido de tudo isto. Podemos escrever livros, fazer perguntas, procurar respostas na filosofia, na religião, na ciência ou simplesmente nas histórias daqueles que chegaram antes de nós.
No final, talvez continuemos sem saber exactamente por que estamos aqui.
Mas talvez não seja necessário saber.
Talvez seja suficiente compreender que estamos aqui.
E que, enquanto estivermos, devemos viver.
Porque a vida não nos promete dias perfeitos. Não nos garante justiça, nem equilíbrio, nem que os bons serão sempre recompensados ou que os maus serão sempre castigados.
A única coisa que parece garantir é movimento.
Nada fica exactamente onde estava.
Nós próprios não somos hoje quem éramos ontem, nem seremos amanhã quem somos hoje.
E é talvez aí que reside a beleza de tudo isto.
Na certeza de que tudo muda.
De que tudo passa.
E de que, apesar de todas as quedas, de todas as perdas, de todas as dúvidas e de todas as voltas que a vida dá, há uma coisa que continuamos a fazer.
Continuamos.
E se tivesse de resumir tudo aquilo que aprendi sobre a vida em apenas três palavras, escolheria estas:
A vida continua…