Crónicas Soltas

Futebóis e dramas

9 de Outubro de 2026

Hesitei bastante antes de escrever este texto sobre os «dramas» em torno da Seleção Nacional de Futebol, sobretudo pelo burburinho que o assunto tem gerado. Ainda assim, não resisti. Até porque, no meio de toda a polarização que se instalou — e, sejamos honestos, isso acontece hoje em dia com quase todos os temas, embora esse já desse para escrever um livro —, parece-me que se perdeu de vista aquilo que considero ser o ponto essencial desta questão.

Por definição, uma Seleção Nacional é um grupo de atletas e uma equipa técnica escolhidos por uma federação desportiva para representar o País em competições internacionais. E convém sublinhar este último ponto: representar o País.

É natural que os comentadores estrangeiros não atribuam particular relevância a este aspeto. Afinal, olham para a questão de fora, muitas vezes à luz dos interesses desportivos ou mediáticos que lhes são mais próximos.

Já considero, para ser diplomático, bastante estranho que tantos comentadores portugueses também não se concentrem neste princípio fundamental.

Quando um atleta ou um treinador integra a Seleção Nacional, não está apenas a representar-se a si próprio, ao seu clube ou à sua carreira. Está a representar Portugal. Faço questão de reforçar esta ideia porque, por vezes, parece existir uma tendência para confundir a instituição com o País. Mas, como diz o povo, convém não confundir a beira da estrada com a Estrada da Beira.

É precisamente por isso que, independentemente do contexto em que ocorreu e das circunstâncias que a possam ter motivado, considero absolutamente inaceitável a decisão de Cristiano Ronaldo de abandonar a concentração da Seleção Nacional. O comunicado que emitiu posteriormente, longe de alterar a minha perspectiva, acabou por reforçá-la.

Já viajei bastante e conheço bem a popularidade mundial de Cristiano Ronaldo. Sei que há milhões de pessoas que o admiram e que, apesar disso, nem sequer sabem onde fica Portugal. Mas essa popularidade não constitui atenuante para nada. Muito pelo contrário: quanto maior é a projeção internacional de alguém, maior deveria ser a consciência da responsabilidade que acompanha essa notoriedade.

Não tenho qualquer dificuldade em reconhecer o mérito de Cristiano Ronaldo. Qualquer pessoa com um mínimo de honestidade intelectual e que aprecie futebol reconhecerá que estamos, sem sombra de dúvida, perante o melhor futebolista português de sempre e um dos maiores jogadores da história do futebol mundial, seguramente entre os nomes que merecem um lugar no seu top 10.

Mas é precisamente aqui que reside a questão: reconhecer a grandeza de um jogador não significa abdicar de princípios, nem aceitar que essa grandeza o coloque acima deles.

Esta reflexão não é um exercício de patriotismo bacoco, nem pretende ser um julgamento pessoal de Cristiano Ronaldo. O que mais me incomoda em todo este episódio é outra coisa: a falta de consciência, por parte de tantos comentadores que vejo na televisão, sobre o significado de representar o nosso País.

Não se trata de gostar mais ou menos de um jogador, de avaliar o seu talento ou de discutir as razões que estiveram na origem de determinado comportamento. Trata-se de perceber que há contextos em que a dimensão individual deve ceder perante uma responsabilidade coletiva. É uma questão de princípio. E os princípios parecem ser, cada vez mais, uma raridade nos tempos que correm.

Todo este caso também levanta questões sobre a própria Federação Portuguesa de Futebol. Por detrás de todo o marketing, da imagem cuidadosamente construída e da máquina de comunicação que envolve a Seleção, continua a ser legítimo questionar se a Federação está verdadeiramente à altura da missão que lhe compete.

Talvez esteja na altura de uma reflexão profunda sobre o funcionamento da FPF, os interesses que nela se cruzam e, sobretudo, a forma de a aproximar do seu propósito original: servir o futebol português e representar, com dignidade e responsabilidade, o País que lhe dá razão de existir.

Mas isso, provavelmente, já será a minha costela quixotesca a funcionar…

E talvez seja mesmo esse o problema: num tempo em que quase tudo parece negociável, defender princípios tornou-se, para alguns, uma espécie de idealismo fora de moda.

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