3 de Outubro de 2026
“You can't always get what you want
But if you try sometime you'll find
You get what you need”
The Rolling Stones
Por vezes, aquilo que queremos e aquilo de que realmente precisamos são duas coisas muito diferentes.
Na nossa vida profissional, sonhamos muitas vezes com um emprego glamoroso, cheio de brilho, reconhecimento e estatuto social. Quando, na verdade, aquilo de que precisamos pode ser algo muito mais simples: encontrar um lugar onde nos sintamos em casa. Uma empresa que funcione, de certa forma, como uma família.
Tenho a sorte de, por mero acaso, ter descoberto isso há já algum tempo e de viver essa realidade há cerca de doze anos.
Passámos por muitas tormentas e tempestades. Houve momentos mais fáceis e outros nem tanto. Mas, de uma forma ou de outra, sempre conseguimos permanecer unidos e levar o barco a bom porto.
É profundamente gratificante trabalhar num lugar onde o esforço de cada um é reconhecido e valorizado.
Ao longo destes anos, é impressionante pensar na quantidade de pessoas que passaram por aqui, entre trabalhadores da empresa e subempreiteiros. Pessoas de origens muito diferentes, com histórias de vida distintas e, sobretudo, com personalidades muito diferentes.
Com algumas inevitáveis exceções — os chamados erros de casting — a maioria acabou por assimilar naturalmente a nossa forma de trabalhar, mas também a nossa forma de estar e de nos relacionarmos uns com os outros.
Há quem defenda, sobretudo nas redes sociais, que não devemos atribuir demasiada importância ao local onde trabalhamos porque, se um dia nos acontecer alguma coisa de grave, seremos rapidamente substituídos.
É verdade. Ninguém é insubstituível. Ou, como gosto mais de dizer, as pessoas verdadeiramente insubstituíveis estão todas no cemitério.
Mas isso não significa que o lugar onde trabalhamos seja indiferente.
Neste momento, tenho a sorte de possuir aquilo que considero ser uma das maiores riquezas da vida: conseguir conciliar uma remuneração que me permite viver com tranquilidade com uma margem de liberdade suficiente para gerir o meu tempo e, sobretudo, para estar presente para as pessoas que mais amo.
E talvez seja precisamente por isso que escrevo estas palavras.
Vivemos tempos de alguma crise de valores e, entre tantos valores que parecem estar a perder-se, há um que me parece particularmente importante recuperar: a gratidão.
No mundo empresarial, porém, a gratidão só funciona se for recíproca. Não pode existir apenas de cima para baixo, nem apenas de baixo para cima. Uma equipa saudável constrói-se quando todos reconhecem o valor dos outros e quando o esforço de cada pessoa é visto, respeitado e, dentro do possível, recompensado.
Mas há uma outra dimensão da gratidão que me é ainda mais próxima.
Hoje, o meu pai faria 78 anos.
Depois de cerca de dez anos a lutar contra uma demência frontotemporal, morreu em 2019.
O tempo tem o estranho condão de amenizar a dor da perda. Não a apaga, mas transforma-a. Aos poucos, a memória deixa de se concentrar tanto nos últimos tempos, nos momentos mais difíceis, e começa a procurar os dias felizes que vivemos juntos.
E também aquelas pequenas rotinas que, na altura, pareciam insignificantes.
Quando o visitava, já numa fase avançada da doença, algumas vezes não me reconhecia. Confesso que, no início, era difícil absorver isso. Há qualquer coisa de profundamente doloroso em perceber que alguém que nos conhece desde sempre deixou de saber quem somos.
Mas, depois do impacto inicial, havia sempre uma certeza que me fazia continuar a visitá-lo regularmente.
Já não o fazia apenas por obrigação.
Fazia-o porque aquela era, talvez, a única forma que eu tinha de lhe continuar a dizer que o amava.
E, sobretudo, de lhe demonstrar a imensa gratidão que sinto por tudo aquilo que fez por mim.
Lembro-me de ter ouvido, algures — julgo que num filme — uma história que nunca mais esqueci.
Um homem visitava todos os dias a mulher que estava internada num lar para doentes de Alzheimer. Um dia, uma enfermeira perguntou-lhe porque continuava a fazê-lo, apesar de a mulher já não o reconhecer.
A resposta ficou-me gravada:
“Ela pode não saber quem eu sou. Mas eu sei quem ela é.”
Talvez seja esta, no fundo, uma das formas mais bonitas de explicar o amor.
E sinto algo semelhante quando estou com a minha mãe, que felizmente está bem e recomenda-se, e me conta pela vigésima vez a mesma história.
Posso já saber como termina. Posso já conhecer cada detalhe.
Mas continuo a ouvi-la.
Porque escutar os nossos pais, estar com eles, ter paciência para as suas histórias e para as suas pequenas rotinas é também uma forma de lhes dizer, sem precisarmos de o verbalizar:
Obrigado.
Obrigado por tudo aquilo que fizeram por nós.
Obrigado pelo tempo que nos deram.
Obrigado pelas coisas que nos ensinaram — e também por aquelas que só aprendemos muitos anos depois.
No fundo, talvez a vida seja isto mesmo: perceber que nem sempre conseguimos aquilo que queremos, mas que, muitas vezes, acabamos por receber aquilo de que realmente precisamos.
E perceber, com o passar dos anos, que algumas das maiores riquezas que temos não se medem em dinheiro, estatuto ou reconhecimento.
Medem-se no tempo que ainda podemos dedicar a quem amamos.
E na capacidade de dizer obrigado enquanto ainda vamos a tempo.