15 de Outubro de 2026
Sete anos depois daquele dia fatídico em que perdi o meu pai, e depois de percorrer as diferentes fases do luto, ficam as memórias dos bons momentos que partilhámos e, sobretudo, tudo aquilo que me ensinou.
A sua morte foi o culminar de uma década de luta contra uma demência frontotemporal que, progressivamente, o foi apagando de nós. Talvez eu e os meus irmãos tenhamos encontrado algum consolo no facto de, a partir de determinado momento, o nosso pai já não se aperceber do seu próprio declínio, vivendo num mundo que, aos poucos, se foi afastando do nosso.
Isso não tornou mais fácil ultrapassar a dor e o choque inicial da sua perda. Mas, de alguma forma, terá amenizado a revolta e ajudado a encontrar alguma paz perante uma realidade tão difícil de aceitar. Afinal, desde o diagnóstico, tivemos tempo para tentar lidar com aquele enorme sentimento de injustiça que nos acompanhou durante tantos anos.
Somos educados para trabalhar durante a idade ativa, com a expectativa de que, um dia, chegará a reforma e poderemos finalmente desfrutar do tempo que dedicámos ao trabalho e à família. Ao meu pai, essa possibilidade foi-lhe roubada por uma doença sobre a qual, na altura, pouco ou nada sabíamos.
Depois de tantos anos de esforço diário, dele e da minha mãe, para proporcionar um futuro melhor aos seus quatro filhos, o destino acabou por lhes negar a oportunidade de aproveitarem juntos a idade da reforma. De fazerem as viagens que nunca puderam fazer, de conhecerem os lugares com que talvez tivessem sonhado e, simplesmente, de desfrutarem da vida sem estarem sempre a colocar os filhos em primeiro lugar.
É difícil não sentir revolta perante esta injustiça. Sobretudo quando pensamos que, depois de uma vida inteira de trabalho e dedicação, aquilo que deveria ser o tempo de colher os frutos de tantos sacrifícios acabou por se transformar numa década de luta contra uma doença cruel.
Ainda hoje, numa conversa com os meus irmãos, falávamos sobre a importância de sermos gratos aos nossos pais. Apesar das dificuldades, dos obstáculos e das inevitáveis imperfeições das nossas vidas, cada um de nós teve a oportunidade de construir o seu próprio caminho. E isso deve-se, em grande medida, a tudo aquilo que eles fizeram por nós.
Gosto de acreditar que o nosso pai, esteja onde estiver, olha para nós com orgulho. Que, de alguma forma, sente que valeu a pena todo o esforço, todo o trabalho e todos os sacrifícios que fez ao longo da vida.
Não apaga a saudade, nem muda aquilo que aconteceu. Mas talvez seja suficiente para dar um novo significado à sua ausência.
Hoje, sete anos depois, continuo a sentir a injustiça de tudo aquilo que lhe foi negado. Mas, nos dias mais difíceis, naqueles em que os aniversários ou as datas de reunião da família tornam a ausência mais evidente, procuro recordar não a doença que o levou, mas o pai que tive, os momentos que partilhámos e tudo aquilo que me deixou.
E, quando consigo recordar tudo isso com um sorriso, sinto que, apesar de tudo, alguma coisa ficou no lugar certo.