Em política, por vezes, a melhor e mais simples opção é, para o bem e para o mal, não fazer absolutamente nada.
Já tenho idade suficiente para perceber que a política sempre foi, e sempre será, um jogo de sombras, de interesses e de controlo de narrativas. Nada contra. Faz parte do jogo.
O que me custa bastante mais aceitar é a falta de noção, a incompetência pura e simples e, sobretudo, a desonestidade intelectual de alguns «ilustres doutores» da nossa praça.
Vejamos o exemplo das recentes acampadas e das subsequentes intervenções policiais.
Não teria sido mais eficaz deixar que os protestos se esvanecessem por si próprios?
Não pretendo discutir a legitimidade das reivindicações, nem transformar este texto num exercício de atribuição de responsabilidades pelo estado a que chegaram a habitação e o custo de vida em Portugal. O que me interessa é outra coisa: a estratégia, ou a falta dela, de quem tem a responsabilidade de governar.
Estive recentemente em Santiago de Compostela e também por lá encontrei uma acampada, a poucos metros da Catedral. A diferença mais evidente em relação ao que se passou por cá não estava nos protestos em si, mas na reação policial.
Não sou jurista, mas os argumentos apresentados pela PSP para justificar a intervenção parecem-me, no mínimo, rebuscados e pouco convincentes. E mais difícil ainda é perceber a coerência desta atuação quando a comparamos com a forma como situações semelhantes foram tratadas no passado. Se a lei de 1974 agora invocada justificava a intervenção, então porque não se agiu da mesma forma noutras ocasiões? Ou será que a lei só ganha relevância quando convém?
A minha dúvida é simples: que se ganhou com isto?
Bastaria, aparentemente, deixar os protestos decorrerem, desde que não colocassem em causa a segurança ou os direitos de terceiros. Num contexto mediático dominado por ciclos noticiosos cada vez mais curtos, seria perfeitamente plausível que, sem uma intervenção que os amplificasse, acabassem por perder visibilidade e desaparecer gradualmente do espaço público.
Em vez disso, optou-se pela confrontação. E a confrontação trouxe precisamente aquilo que, em teoria, se deveria querer evitar: mais atenção mediática, mais polémica e mais combustível para alimentar o protesto.
Custa-me perceber o que levou o Governo a escolher este caminho e, sobretudo, que resultados espera obter com ele. Há decisões políticas que se justificam pela necessidade de agir. Outras, porém, exigem precisamente o contrário: contenção, sentido de oportunidade e a capacidade de perceber que nem todos os problemas precisam de ser transformados em batalhas públicas.
Por vezes, governar é saber quando intervir. Mas também é saber quando não o fazer.
Quase tão difícil de compreender como tudo isto é a escolha do PSD para dar a cara pelo partido neste tipo de assuntos. Entre tantos quadros e tantos boys, não haveria ninguém capaz de comunicar com um mínimo de serenidade, sentido institucional e empatia? A agressividade e a arrogância com que alguns porta-vozes se apresentam perante a comunicação social podem até satisfazer a necessidade de alimentar a polémica do dia, mas dificilmente contribuem para transmitir credibilidade ou aproximar os cidadãos da política.
A política precisa de firmeza, sem dúvida. Mas firmeza não é sinónimo de sobranceria, tal como autoridade não se confunde com agressividade.
Depois, não se admirem com o desgaste da confiança nos partidos e nas instituições. Quando a comunicação política parece mais empenhada em alimentar conflitos do que em resolvê-los, não deveria surpreender ninguém que os eleitores comecem a procurar alternativas.
E o PSD, que tire as suas próprias conclusões antes das próximas eleições.